quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Menina...

Então eu nunca vou ser mulher, sério? Vou continuar sempre menina-moleque? Vou chegar aos trinta ainda brincando de sapateado na frente da tv para irritar minha mãe? E apertar minha irma e me trancar no banheiro porque embora mais nova ela é muito mais forte. E ir até o quarto onde esta meu irmão, apertar sua barriga, puxar a orelha, dar uma fungada em seu pescoço, falar qualquer coisa que o faça rir, e só aí, entrar no meu mundo, eu digo: meu mundo, de criança. Meu quarto de menina. Com ursinhos, bonecas e rosa, coisa de meninas. E ter roupas jogadas, sujas, carrinhos, papéis rasgados, coisa de meninos. É sempre assim? Chorar como menina, falar palavrão como menino. Andar como menina, comer como menino. Eu adoro tomar banho, é coisa de menina? Mas e mulher, mulher é o que? E estou tão longe de ser... assim, mulher? Vejo que estou longe de parecer com a mulher mais magnífica do mundo, minha mãe. Ah, mas é esforço demais, primeiro preciso me tornar mulher para só depois, tentar ser tão boa quanto a melhor mulher do mundo. Que acorda cedo, lava, passa, limpa, cozinha, sorri, canta, dança, não pinta nem borda porque não quer, que ouve as estórias dos filhos com atenção maior do mundo, e as dores ouve com apego, que só mulheres mães tem. Ah, então é isso, porque além de mulher, ela é mãe. Por isso é tão difícil? Não, porque eu se quer consigo fazer as coisas que exige que se faça uma mulher, tirar sobrancelhas, depilar perna, ir á manicure toda semana, cuidar da pele, do cabelo, do bom humor, da saúde e pensar no meio ambiente, em política, ler revista, saber das notícias, entender a si e ao mundo. Ora essa! Entender o mundo eu até tento, mas ME entender? Impossível. Quero sair correndo, chutar a bola, jogar o balde com água na cara de alguém, me sujar igual as crianças da propaganda do OMO fazem... Andar de triciclo, colar adesivo na testa e andar em cima dos carrinhos de supermercados, sujar as mãos de barro, de tinta, de batom... pintar a cara de maquiagem, me vestir com as roupas da minha mãe, perguntar se eu to bonita, qual é a minha nota, perguntar porque toda hora, colocar um sapato que não serve e desfilar pra minha vó, ... Mas sabe o que é? Descobri que ainda não sou mulher, mas posso chegar. Um alguém pode me tornar mulher, dessa vez ainda não deu certo. Ao ser levada para um jantar, crianças não saem um jantar ou 'encontro' comos dizem os americanos, né? Pois então, eu fui, tão mulher. E no meio do jantar me tornei criança. Ri alto, picotei papéis e fiz um bonequinho com palitos, pedi coca-cola e não vinho, e na hora de descer as escadas, pulei o ultimo degrau como costumava fazer na escola... E quer saber? Ele me amou menina, riu, se divertiu, e me pediu em namoro... Enquanto isso, vou crescendo, e quem sabe antes de casar, eu me torne, quem sabe, mulher...
Mas sabe, ser criança é essência. Carregar a esperança, o riso, a alegria, a inocência... Ser criança é levar a pureza ao mundo, paz... Não me preocupar com as responsabilidades mesmo que as cumprindo, e nunca esquecer de agradecer a noite, de joelhos e com as maos coladas uma na outra, ao Papai do Céu! Papai do céu, obrigada pelo dia de hoje. Amém.

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